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sábado, 31 de outubro de 2026

CIRCULA NA INTERNET

 


Quando você percebeu que os jovens que foram resistência à ditadura em 1964 e os idosos que lutaram pela manutenção da democracia em 2026 são as mesmas pessoas?

ZéBeto

Viver é Perigoso

JUÍZO MOÇADA !

 


Viver é Perigoso

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Uma ideia que tomou o mundo: Lula como antítese do ódio

Houve quem risse quando se disse, há quem ainda ria quando se diz, que Lula não é um ser humano e sim uma ideia. Agora as ruas e as urnas parecem tê-lo provado com eloquência, agora alcançamos essa estranha clareza, a visão de que Lula é mais que um homem, mais que uma biografia, mais que uma interminável trajetória política. Não diminuo com isso a figura humana, cuja história ainda há de ser escrita em milhares de páginas, na dura missão de circunscrever um personagem complexo e infinito. Mas cada um dos milhões que tomaram as ruas antes do último domingo, e dos milhões que tomaram as redes para garantir uma virada impossível, sabia bem que lutava por algo maior, incorpóreo, etéreo, indefinível.

Não é fácil atribuir outro nome a essa ideia, nenhum dos nomes típicos parece se aplicar com perfeição, não se trata de revolução ou socialismo ou utopia. Isso que a ideia Lula encampou nos últimos dias se distingue dos ideais políticos tradicionais, sendo mais bem descrito por uma órbita de vagos sentimentos: a alegria, a esperança, o prazer, a ternura, o humor, a empatia, a imaginação, a franqueza, a fantasia, tudo confluindo numa luta aguerrida como não se via há tempos, tudo explodindo em euforia diante da vitória surpreendente. A vitória da verdade contra a mentira insistente, como tão fácil se revelou em seguida. A vitória da vida contra os muitos disfarces da morte, se cabe alguma síntese.

Alguém ressalvará que Lula não pode ser algo assim, que o homem em si não corresponde a tal sonho, ou então não haveria tamanha multidão disposta a votar contra ele, não haveria tanto ódio contra a imagem fatigada de um presidente eleito muitas vezes. Alguém ressalvará que a figura concreta não faz jus a tão elevada quimera. Mas assim mesmo são as ideias, elas não se definem com precisão, exigem sempre algum grau de distorção para que existam. Das abstrações não queremos que sejam precisas, não queremos a impossibilidade de que sejam concretas, tangíveis. Queremos que sejam sobretudo reveladoras e justas e bonitas, não mais que isso.

Acho que vem daí a alegria que se alastrou também além das nossas fronteiras, e que tem se reproduzido numa sequência de vídeos tão risonhos quanto insólitos. Pequenas multidões fazendo o L com as mãos nas ruas inflamadas de Paris, ou num comício na Espanha, ou no México depois de um discurso da presidenta, ou por sensatos eleitores estadunidenses, ou por crianças na paisagem desolada da Palestina. Todos entenderam que Lula não é um velho governante de um país periférico, e sim um novo símbolo da luta contra a extrema direita ao redor do mundo. Luta que pode sim ser vencida contra todo receio, contra todo desalento, contra toda manipulação de notícias, contra toda desorbitada pressão das elites.

Há tempos vínhamos assombrados apenas pelo ódio. "Vejam como ainda é eficiente, como se mantém em forma o ódio no nosso século", escreveu com exatidão a poeta polonesa Wislawa Szymborska. E continuou a elencar em seus versos as muitas proezas do ódio, sua facilidade em saltar e ultrapassar, em gerar as causas que lhe dão vida, em arrastar as multidões consigo. O ódio, o ódio, "mestre do contraste entre o estrondo e o silêncio", tão mais poderoso que os outros sentimentos, "fracotes e molengas". O ódio "tem a vista aguda de um atirador e afoito olha o futuro - só ele", assim termina o terrível poema.

Pois bem, não sei com que nome passaremos a chamar a nova ideia que surgiu, esse novo sentimento que nos tomou tão intensamente, mas sei que ele soube juntar a força necessária para derrotar o ódio que parecia invencível. Parte do ódio já correu para longe do país, outra parte restou aqui envergonhada, retraída, tímida como há muito não se via. Podemos agora ter algum sossego, respirar um ar mais límpido, experimentar as novas velhas formas da beleza. A surpresa explosiva do último domingo, tenha o nome que tiver essa antítese do ódio, ainda há de alimentar por muitos anos a nossa resistência.

Julián Fuks

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