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quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

SERIA CÔMICO SE NÃO FOSSE TRÁGICO

 


DEU NA PRIMEIRA PÁGINA DO EL PAÍS - ESPANHA

Poucas coisas são tão onipresentes no Brasil quanto os chinelos: na falta de um censo confiável, podemos afirmar com segurança que cada um dos 213 milhões de habitantes do Brasil possui pelo menos um par desses clássicos chinelos: uma sandália de borracha básica, simples e confortável. Um símbolo puramente brasileiro. As Havaianas são (ou eram) praticamente um emblema nacional.

Uma campanha publicitária provocou indignação na extrema-direita, que lançou uma campanha de boicote nas redes sociais nos últimos dias. Tudo começou com um comercial inofensivo em que a atriz Fernanda Torres, vencedora do Globo de Ouro deste ano, se dirige aos espectadores, dizendo que não quer que eles comecem 2026 "com o pé direito", mas "com os dois pés". 

Para os apoiadores de Bolsonaro, abrir mão do "pé direito" é uma clara alusão ao campo conservador, mais uma provocação velada aos eleitores de direita. A Alpargatas, empresa dona da Havaianas, chegou a ver seu valor de mercado cair mais de 2% devido ao temor dos investidores, mas se recuperou no dia seguinte.

A campanha de ódio também está ligada à sua protagonista, Fernanda Torres, uma das melhores atrizes de sua geração, que passou o último ano acumulando elogios e prêmios por sua interpretação de Eunice Paiva em "Eu Ainda Estou Aqui", filme sobre a memória da ditadura militar brasileira. O filme de Walter Salles, vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, foi um fenômeno no país, mas para a direita mais radical, tornou-se um espelho incômodo no qual se enxergar. 

No campo de batalha que são as redes sociais, a direita parecia estar falando sozinha, mas quando a questão saiu de sua bolha, a maioria dos brasileiros reagiu primeiro com perplexidade e depois com memes. Piadas sobre inimigos fantasmas proliferaram enquanto a Havaianas ganhava uma campanha publicitária gratuita sem precedentes. A Alpargatas, empresa por trás da marca, é uma das gigantes da moda brasileira, com um valor de mercado de aproximadamente US$ 1,4 bilhão. 

A direita agora opta por usar "Ipanema", a sandália de dedo da concorrente. A polarização no Brasil chegou aos pés. 

A marca Havaianas nasceu em 1962 e faz parte da memória coletiva de todos os brasileiros. Na década de 1980, durante a crise inflacionária, o governo as classificou como item de primeira necessidade para controlar os preços. 

Na década de 1990, Jean Paul Gaultier as apresentou pela primeira vez nas passarelas e, desde então, seu crescimento tem sido imparável. Hoje, a marca é vendida no mundo todo, a preços muitas vezes mais altos do que em seu país de origem, onde ainda podem ser compradas pelo equivalente a cinco ou seis dólares em qualquer esquina: de supermercados a bancas de jornal e farmácias. 

A marca acaba de lançar uma colaboração com a Dolce & Gabbana e contratou Gigi Hadid como sua primeira embaixadora global. A estratégia da empresa, no entanto, é agradar a todos. Seu slogan, aliás, é "Todo mundo usa". Esse consenso, porém, parece ter sido quebrado.

Mais de um analista tentou atribuir essa mais recente miragem ao delicado momento que a extrema direita brasileira atravessa, um tanto desorientada e sem uma narrativa sólida à qual se agarrar. O líder do movimento está preso, cumprindo pena de 27 anos por tentativa de golpe. O presidente Donald Trump, que durante meses ameaçou o Brasil com tarifas e sanções para tentar impedir o julgamento de Bolsonaro, afrouxou o controle e agora sorri ao lado de Lula da Silva, que atualmente aparece em todas as pesquisas como o claro favorito para vencer as eleições do ano que vem. 

El País

Viver é Perigoso