PEQUENO INVENTÁRIO DO QUE NÃO ACONTECEU
de Carlos Castelo
Não escrevi o grande romance brasileiro.
Também não escrevi o pequeno, o que talvez seja mais grave.
Não ganhei o Jabuti, o Camões, o Pulitzer. Nem sequer um prêmio cuja cerimônia fosse realizada numa padaria.
Nunca recebi um telefonema da Academia Brasileira de Letras perguntando o número do meu manequim.
Não fui traduzido para vinte idiomas.
Não morei numa água-furtada em Paris escrevendo um livro genial enquanto devia três meses de aluguel.
Não discuti literatura com Borges num café de Buenos Aires.
Não bebi com Paulo Mendes Campos.
Não joguei frescobol com Millôr Fernandes.
Não tive uma frase roubada por Nelson Rodrigues, principalmente porque ele morreu antes que eu pudesse escrevê-la.
Nunca encontrei Kafka numa repartição pública, embora tenha encontrado repartições públicas suficientes para compreender Kafka.
Não publiquei uma crônica que tenha derrubado um ministro.
Não fui correspondente de guerra.
Não redigi a manchete que parou o país.
Nenhum presidente da república perdeu o sono por minha causa.
Nenhum general mandou recolher meus livros.
Nenhuma das minhas obras precisou ser escondida debaixo do colchão. (Algumas, infelizmente, poderiam ter sido).
Não criei um best-seller.
Não precisei fugir de leitores numa livraria.
Nunca houve fila dobrando o quarteirão para obter meu autógrafo. Houve ocasiões em que nem o quarteirão apareceu.
Não vi alguém lendo um livro meu no metrô e, comovido, deixei de revelar que era o autor.
Não colaborei com a The New Yorker.
Não fui convidado para jantar na casa de Woody Allen, o que hoje considero uma frustração administrável.
Não tive uma casa de campo onde pudesse anunciar aos amigos que estava me retirando para escrever.
Não flertei com Brigitte Bardot em Búzios.
Não tive groupies esperando na porta do camarim. Às vezes, nem camarim havia.
Não aprendi piano.
Não toquei guitarra manouche.
Não escrevi o slogan que entrou para a história da publicidade brasileira.
Não tive uma ideia às três da manhã pela qual uma multinacional pagasse três milhões de dólares.
Não fui diretor de criação em Londres.
Não trabalhei num escritório com vista para o Central Park.
Não disse a um cliente: “Ou você aprova esta campanha ou eu me demito.”
Não inventei uma palavra incorporada ao dicionário.
Não recitei um poema tão perfeito que todos à mesa permanecessem em silêncio.
Não consegui viver de poesia.
Não fui gravado por Chico, Caetano e Gil.
Não viajei pelo mundo com uma pequena mala, um caderno e nenhuma preocupação.
Não aprendi a dizer não no momento certo.
Não li todos os livros que comprei.
Não escrevi todos os livros que imaginei.
Não cheguei aonde pretendia.
E, pensando bem, se tudo tivesse dado certo, eu provavelmente não teria nada para escrever nesta crônica.
Carlos Castelo
Viver é Perigoso