José Manuel da Conceição foi ordenado no dia 17 de dezembro de 1865. Já lá vão 160 anos. Esse dia passou a ser considerado Dia do Pastor.
O Pastor José Manuel nasceu em São Paulo, de uma família católica, em 1822. Sua família mudou-se para Sorocaba quando ele tinha dois anos de idade.
Conceição tinha um tio-avô que era padre, com quem aprendeu a ler e a escrever –cultivando também o desejo de seguir o sacerdócio. Nos anos 1840, voltou para São Paulo para estudar teologia.
Ainda antes de se tornar padre, envolveu-se em atividades católicas na Fazenda Ipanema, área próxima à cidade de Sorocaba onde funcionava a Real Fábrica de Ferro São João de Ipanema - também chamada de Fundição Ipanema, siderúrgica onde trabalhavam diversos imigrantes europeus e conheceu famílias de fé protestante, na maioria ingleses e alemães. Ficou impressionado com a maneira como eles se dedicavam à fé aos domingos e como eram ávidos leitores da Bíblia.
Ficou muito amigo de um médico dinamarquês que vivia no povoado - e com ele aprendeu geografia, história e alemão.
O contato com estrangeiros de origem protestante o levou a refletir sobre a vivência da religião no protestantismo, com mais leitura e estudo da Bíblia, contraposta à religiosidade católica existente no Brasil do século 19
Em 1845, Conceição foi ordenado padre católico. A Igreja decidiu enviá-lo então para Limeira, no interior paulista.
Logo ele chamou a atenção por sua postura um tanto heterodoxa. Passou a ser visto como iconoclasta, aquele que se opõe à veneração de imagens.
Na tradição católica, as imagens fazem parte do ambiente religioso –embora se entenda que não se trata de venerá-las, mas sim de utilizá-las como forma de associação às personalidades religiosas que, estas sim, são veneradas. O protestantismo aboliu essa prática e não tem a tradição de representar as figuras consideradas sagradas com imagens.
Todo esse quadro fez com que bispos buscassem transferir Conceição como forma de abafar o constrangimento social que ele poderia estar causando para a instituição. O Padre Conceição serviu em Piracicaba, Monte Mor, Taubaté, Ubatuba, Santa Bárbara d'Oeste, e Brotas, além de Limeira, onde teve duas passagens.
Padre Conceição "nunca foi bem-visto pela hierarquia católica romana".
De acordo com uma publicação datada de 1900 do jornal presbiteriano O Puritano, que circulou no Rio entre 1899 e 1953 - portanto após a morte de Conceição - , o religioso teria comentado sua inadequação perante ao catolicismo.
A essa altura, ele já era chamado pelo povo de "padre louco" ou de "padre protestante".
Ponto advogado por Conceição, consonante com a fé protestante e dissonante da doutrina católica, era que os pecados poderiam ser confessados diretamente a Deus, sem a necessidade de um padre como intermediário.
Em 1864, Conceição largou a batina e rompeu definitivamente com o catolicismo –apresentou renúncia ao bispo em setembro daquele ano. No mês seguinte, quando o pastor norte-americano Alexander Latimer Blackford (1829-1890), pioneiro na implantação da Igreja Presbiteriana no Brasil, visitou Brotas, Conceição se converteu publicamente a essa denominação, sendo batizado.
Os presbiterianos são considerados "a primeira grande igreja protestante estabelecida no Brasil", porque chegaram ao país no século 19 com uma grande estrutura e número de missionários, expandindo-se bastante, sobretudo no interior de São Paulo. O primeiro templo foi inaugurado no Rio em 1862.
Em 17 de dezembro de 1865, um ano depois da sua conversão, Conceição foi ordenado pastor evangélico - o primeiro nascido no Brasil.
O rompimento de Conceição com a Igreja Católica não foi fácil. No seu livro Profissão de Fé Evangélica, o próprio religioso cita que sofria "perseguições" devido à sua conversão ao presbiterianismo, dizendo ter sido alvo de violência física "incitada" por padres.
A conversão de Conceição "estabeleceu um precedente" e levou outros padres a seguirem o mesmo caminho. Entre os exemplos mais ilustres estão os casos de Hipólito de Oliveira Cassiano, Manoel Vicente Ferreira e Anibal Nora, ex-padres que também se tornaram pastores.
Ao contrário do que costuma acontecer, ele não quis ser nomeado para atuar em uma jurisdição –inquieto, preferiu tornar-se um pregador itinerante. Quase sempre se deslocando a pé, como andarilho, atuou como missionário em boa parte do interior paulista, no sul de Minas Gerais e também no Rio de Janeiro. Distribuía edições da Bíblia por onde passava. E também foi vítima de preconceitos, desconfiança pública e, em alguns casos, violência física.
O Pastor Conceição tomou o barco em 25 de dezembro, dia de Natal.
FSP
Viver é Perigoso