Escreveu Ricardo Noblat:
"...Lula faz de conta que não se mete com a formação do novo governo. Afinal, pegaria mal junto ao distinto público aparecer como tutor da presidente eleita. Mas é só o que ele tenta ser.
Outro dia cometeu o ato falho de dizer que Dilma deveria se sentir à vontade para montar seu governo como bem o desejasse.
Por falta de cabimento, jamais se ouvira algo parecido da boca de outro presidente em fim de mandato.
OK, Lula é diferente de todos. O fato é que na história recente do país, a situação de Dilma lembra a de José Sarney, o vice que com a morte de Tancredo Neves se tornou o primeiro presidente civil depois da ditadura militar de 64.
Sarney herdou um ministério nomeado de véspera por Tancredo. Governou com ele durante mais de um ano. E mesmo quando reformou o ministério, seguiu até o desfecho do seu mandato como refém do PMDB, o partido de Tancredo e de Ulysses Guimarães, na época o condestável da Nova República.
Do fim da eleição para cá, saiu de cena a Dilma que fazia tremer os colegas de governo – e que um dia fez chorar o presidente da Petrobras. Sim, esse mesmo que Lula quer manter no lugar.
A Dilma briguenta, do “vamos à luta” contra José Serra e aqueles empenhados em interromper a reinvenção do Brasil, foi arquivada quando prometeu governar para todos os brasileiros.
Entrou a Dilma que chora em público. Que rende homenagens ao PT. E se diz decidida a governar com todos os partidos que a ajudaram a se eleger – e mais aqueles que se ofereçam para apoiá-la daqui para frente.
A nova Dilma é um personagem ainda em construção. Sem dúvida, muito mais atraente e complexo do que o outro.
Cultiva uma preocupação que faz sentido. Enquanto Lula não quer ser visto como o mandão contumaz, ela não quer ser vista como a ingrata, a desleal, aquela que mal foi eleita deu logo as costas para o principal responsável por sua eleição.
Outro dia, Dilma também incorreu num ato falho ao dizer que “presidente não precisa ser celebridade”.
Feita por Serra, por exemplo, a observação soaria como uma crítica a Lula, que persegue os holofotes e terá dificuldades para viver longe deles.
Feita por Dilma foi entendida como a antecipação de um novo estilo de governar. Mais para o recato do que para o exibicionismo. Para a modéstia do que para a arrogância. Tomara que assim seja.
Não existe almoço grátis, costumam repetir os economistas. Alguém sempre paga a conta.
Também não existe eleição grátis. É o que parece querer dizer Lula quando se apressa em indicar aspirantes a peças chaves do governo Dilma – Guido Mantega, Palocci, Henrique Meirelles, Paulo Bernardo, Nelson Jobim e Gilberto Carvalho, entre outros.
Pobre Dilma.
Ganhou o direito de suceder a Lula. Agora luta em silêncio e com uma habilidade insuspeitada para ganhar também o direito de governar. Assim como aconteceu com Sarney, que um dia afirmou: “Você governa o governo. Mas você não governa o tempo que governa”.
A Era Lula está longe de acabar.
ER