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segunda-feira, 22 de junho de 2026

COPA DO MUNDO -1950



Meu pai contou muitas vezes e cada vez melhor, com riqueza de detalhes.

Aconteceu em 1950, com os irmãos Riera, Antonio, Luís, Mário e José (meu pai), com idade variando entre 30 e 40 anos, uma histórica viagem ao Rio de Janeiro.

O Sr. José, falava da epopéia que foi a viagem, no sábado, dia 15 de julho de 1950.

Foram(mais de 10 horas de carro), pois a Dutra, com uma pista só e que foi inaugurada em 1951 e com dificuldades diversas.

Foram assistir no dia seguinte (16/7/1950) a final da Copa do Mundo a ser disputada entre o Brasil e o Uruguai. Todos sabem o que aconteceu.

A narração mencionava o sufoco para entrar no Maracanã e de só conseguirem lugar, praticamente tocando a marquise com as mãos. Mais de 200.000 pessoas naquele estádio ainda não terminado. Com muito custo, se ajeitaram no último degrau das arquibancadas, 6 horas antes do jogo começar.

Sem água, sem possibilidade de ir ao banheiro e sentindo a estrutura de concreto armado, literalmente balançar, a coisa começou a se complicar.

Depois de algumas horas de suplício, fizeram uma conferência familiar e votaram por unanimidade pela retirada estratégica, isto é, cair fora antes do início da partida.

Impossível. Não tinham maneira de se deslocar.

O meu Pai, sempre parava a conversa por aí. Ele não demonstrava a mínima vontade de continuar no assunto.

Um dia, durante uma pescaria, de surpresa, ele tomou a iniciativa de dar sequência na conversa sobre 1950.

Disse ele: A verdade, é que após um primeiro tempo de zero a zero, o Friaça (jogador brasileiro), marcou um gol logo no início de segundo tempo.

Foi a véspera do apocalipse. As quase duzentas mil pessoas (ele excluia a si e aos meus Tios), pulavam e gritavam de forma alucinada. A estrutura de cimento começou a vibrar mais e mais. O Tio Antonio, que era o mais velho, gritou se fazendo ouvir: "estamos no arroz", que era uma expressão de desespero na época.

Depois da comemoração, a multidão foi se aquietando, contribuindo para a diminuição da vibração da estrutura do estádio.

Suspirando fundo e enxugando o suor do rosto com a gravata, o meu Tio Antonio, como irmão mais velho, chamou os irmãos para mais perto e disse: Se sair outro gol do Brasil, essa merda cai. No que o Tio Mário completou: Se terminar com esse 1x0, a merda vai cair na comemoração no final do jogo.

Meu Pai deu uma pensada e cochichou com os irmãos: Deixar o estádio agora, não será possível. A única maneira de voltarmos vivos para Itajubá, completou ele, é torcer para os "home" (uruguaios). Fechado.

A reversão de posicionamento foi efetuada discretamente.

Deu no que deu. O Uruguai venceu, e todo a multidão se retirou cabisbaixa, num silencio mortal.

Segundo o meu Pai, ele já havia presenciado velórios mais animados.

Finalizou a conversa e não se falou mais do assunto.

Viver é Perigoso

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