Crescemos com medo de referências ao Hospício de Barbacena, que ficou conhecida como a cidade dos loucos.
Foi fechado o Hospital-Colônia Barbacena, onde cerca de 60 mil brasileiros morreram de fome, frio e diarreia até a década de 1980 e com ele, o capítulo mais cruel da psiquiatria no Brasil. Hospital-Colonia, fundado como um sanatório para ricos e convertido em um manicômio em 1903.
Durante grande parte do século XX, o primeiro e principal hospital psiquiátrico de Barbacena funcionou como uma espécie de depósito para supostos indesejáveis, homens e mulheres dos quais a sociedade queria se livrar. Milhares de pessoas — alcoólatras, mães solteiras, homossexuais, epiléticos, inconformistas, prostitutas, moças rebeldes — foram enviadas para lá pela polícia, seus empregadores ou suas famílias. A maioria era sã; não eram doentes mentais. Simplesmente não se encaixavam nos padrões da sociedade vigente, e a sociedade queria se livrar delas. O fluxo era tão grande que uma linha férrea chegava até a entrada.
Durante décadas, o Hospital-Colônia não teve médicos nem enfermeiros, apenas guardas para vigiar milhares de pessoas que vagavam nuas pelas celas e pátios, dormindo em círculos para se aquecerem nas frias noites de inverno. Em certo momento, o tratamento se limitava a duas opções: comprimidos rosa ou azuis, dependendo dos sintomas. Tratamentos considerados inovadores, como lobotomia e eletrochoque, também foram utilizados por um período.
Tantas pessoas morreram que o hospital passou a ter seu próprio cemitério. Mas nem todas receberam um enterro digno. Cerca de 2.000 corpos foram vendidos para universidades da região. Recentemente, as Universidades Federais de Minas Gerais e Juiz de Fora pediram desculpas publicamente pela violação da dignidade dessas pessoas.
Em 1979, o médico o psiquiatra Franco Basaglia, figura proeminente na reforma dos asilos na Itália. estrangeiro visitou Barbacena e testemunhou o que acontecia por trás de seus muros. “Hoje estive em um campo de concentração nazista. Nunca vi nada parecido em nenhum outro lugar”.
A jornalista Daniela Arbex descobriu a história, investigou-a, entrevistou sobreviventes, enfermeiros, guardas... e documentou essa atrocidade em um livro intitulado Holocausto Brasileiro, que se tornou um best-seller. Mais tarde, foi adaptado para uma série documental de televisão.
No terreno do Hospital-Colonia, foi inaugurado o Museu da Loucura, que narra a história arrepiante do que aconteceu dentro daquelas paredes. Barbacena aprendeu com a sua própria história e tornou-se uma referência em cuidados psiquiátricos.
El País
Viver é Perigoso

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