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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

FAKE READERS



João Pereira Coutinho disse que endeusar políticos é sinal de doença mental

E, nesse quesito, há países e países.

O instituto de pesquisas Ipsos Mori resolveu estudar o assunto, informa o jornal "Daily Telegraph". Entrevistou mais de 19 mil pessoas em 27 países. E concluiu, entre outras coisas, que os "fake readers" não se distribuem democraticamente pelo mundo.

No estudo do Ipsos Mori há um país que se destaca pelo seu impressionante grau de credulidade: o Brasil, que lidera a lista. Os brasileiros, ou 62% deles, são os mais crédulos de todos (a média é 48%).

Atenção: não se trata de repetir o clichê popular (e populista) de que "todo político é ladrão/incompetente/psicopata". Provavelmente, nem todos. Provavelmente.

Eruditos apressados dirão que a culpa é da colonização (e do atraso educacional); da herança católica (e da reverência cega perante a palavra escrita); ou, então, de ninguém: se o Brasil é um dos maiores consumidores mundiais de internet, é inevitável que o número de otários seja proporcional ao número de usuários.

Boa sorte nesse debate. Uma coisa é certa: se há algo que distingue o período eleitoral que o país vive é a existência de tribos —à esquerda e à direita, sem distinção— que cometem o supremo pecado em política: acreditar em políticos e batalhar obstinadamente por eles.


Existe uma diferença entre cultivar esse advérbio cauteloso e defender, com fanatismo, o dogma contrário: o político em quem eu voto é a encarnação terrena da sabedoria e da salvação.

Uma temporada recente no Brasil só confirmou o que eu já conseguia intuir à distância: do brasileiro mais anônimo ao militante mais sofisticado, todos parecem sofrer da mesma febre —uma confiança cega, e surda, e muda, e até paralítica, no seu candidato.

Observei isso ao vivo: estava no aeroporto de Brasília, aguardando o meu voo para São Paulo, quando uma turba enlouquecida veio na minha direção. Que fiz eu para merecer aquilo?

Ledo engano. Quando olhei para trás, o ex-presidente Jair estava a um metro de mim, vindo sei lá de onde. O que se seguiu foi digno de um encontro religioso.

Não é um exclusivo de Sr. Jair. O mesmo poderia acontecer com Lula - e acontece, à porta do cárcere, onde dezenas, centenas, milhares de crentes são capazes de enfiar a cabeça na guilhotina pela honestidade de terceiros.

Engraçado: eu sou incapaz de arriscar a minha cabeça por pessoas que conheço bem, ou que julgo conhecer. Aliás, para ser honesto, nem por mim arriscaria o bestunto. Como proceder de forma diferente com alguém que eu não conheço de todo - e, ainda para mais, um político, ou seja, um membro da espécie Homo sapiens que inevitavelmente possui um grau maior de narcisismo e ambição por contingências do ofício?

Votar no melhor candidato é uma coisa; endeusá-lo e canonizá-lo, um sintoma de transtorno mental.

Haverá cura? Não sei.

João Pereira Coutinho - FSP

Viver é Perigoso


Um comentário:

Anônimo disse...

O povo que vota é bobo