"Aguas de Março" - Editora 34 - 136 páginas - Milton Ohata, Augusto Massi, Arthur Nestrovski e Walter Garcia.
Extraído da Crônica do Mário Sérgio Conti - Na Folha de São Paulo, sob o título " O Mistério Profundo de Águas de Março".
Há 54 anos, Antônio Carlos Jobim compôs a melhor música brasileira de todos os tempos, “Águas de Março”.
Há 24 anos, em enquete da Folha, música foi escolhida a ‘canção nacional máxima’.
Superlativo e subjetivo, esse “melhor” tem razão de ser. Há 24 anos, a Folha pediu a 214 pessoas ligadas à música que levassem em conta letra, melodia, importância histórica e razões afetivas para eleger a canção nacional máxima, e “Águas de Março” chegou na frente.
Em segundo lugar ficou “Construção” de Chico Buarque, que, por sua vez, considerava a composição de Jobim “o samba mais bonito do mundo”. Leonard Feather, crítico do New York Times, disse algo parecido: “Águas de Março” é uma das dez músicas mais lindas do século 20.
Além do que, foi cantada pela Elis Regina, Nara Leão, Gal Costa, e pelo João Gilberto. Em inglês, por Ella Fitzgerald, Art Garfunkel e Dionne Warwick. Há versões em espanhol, francês, italiano.
Forma musical dominante no Brasil desde sempre, a canção não é mais o sol do sistema cultural. Mas "Águas de Março" permanece, é um clássico que parece ter sido composto ontem.
É difícil cantá-la. Dançá-la, nem pensar. Cantarolá-la, sim, mas uns poucos versos da letra quilométrica. Não é brejeira nem carrancuda, festiva ou funesta. Passa-se num presente perene no qual vige um único verbo: ser. Ele é conjugado 92 vezes na terceira pessoa do singular do presente do indicativo: é. E quatro no plural: são. Quem ou o que é o sujeito da ação, caso ação haja, é um mistério profundo.
Saiu agora um livro que lança a luz da manhã nesse mistério: “Águas de Março": Sobre a Canção de Tom Jobim”. Publicado pela editora 34, traz ensaios do historiador Milton Ohata, do crítico literário Augusto Massi, do músico Arthur Nestrovski e do compositor Walter Garcia – professores que escrevem com conhecimento de causa e clareza.
Milton Ohata, conta que grampearam seu telefone de Jobim e bisbilhotaram a correspondência. Mesmo a apolítica “Águas de Março” enfrentou problemas para ser liberada: uma censora asnática cismou com o primeiro verso: “pau” significaria polícia; “pedra”, um líder estudantil do maio francês, Cohn-Bendit; “fim do caminho”, a derrubada do regime.
Augusto Massi analisa a letra, o “desenvolvimento compacto” e o “fluxo contínuo de palavras”.
Arthur Nestrovski estuda a “fluidez da música”, sua “forma líquida, sem ângulos”. Ousado, liga “Águas de Março” a Schumann, Schubert, sobretudo Chopin.
No último ensaio, o mais denso, Walter Garcia repassa o percurso artístico de Jobim, o abandono da bossa nova, a opressão ditatorial e a melancolia que o asfixiou em 1972.
Mário Sérgio Conti (extraído)
Viver é Perigoso

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